AS MINHAS CALÇAS VERDES

7446

Por volta dos meus quinze anos sentia-me, para além de cheio de mim próprio, abençoado pela genética por ter uma pele imaculada. Ao contrário dos meus colegas, não tinha uma única borbulha ou qualquer pelo da barba a querer dar o ar da sua graça. Tinha uma franja farta que me cobria um dos olhos e, na altura, por já trabalhar em moda fazia uns três anos, usava o cabelo branco. É mais fácil “vender-te” se tiveres esse ar andrógino” – ouvi de quem geria os caminhos que havia de seguir.

E era verdade. Foi verdade. Ter os lábios carnudos, as pestanas grandes e a pele tão lisa quanto papel foi-me, profissionalmente, benéfico. Por outro lado, na escola, nem sempre foi assim. Não que estivesse realmente preocupado com isso, mas recordo-me de um episódio que me marcou até hoje. E estou certo de que me marcará para sempre.

Achava eu que, por aparecer nas revistas que as miúdas liam naquela altura, isso me dava estatuto. E talvez me tenha tornado num adolescente arrogante e de nariz empinado, o que, por sua vez, provocava comichão a muita gente mas fazia-me sentir protegido dos demais.  Certo dia resolvi ir para a escola com umas calças verde-alface, justas, tão justas que me lembro que as vestia deitado para facilitar o processo. Realçavam-me as pernas torneadas e o rabo, digamos, robusto. Herança familiar materna, sem dúvida.

Para parte de cima escolhi uma t-shirt preta, como era meu apanágio, e entrei pelos portões a dentro seguro de mim e orgulhoso das minhas calças novas. Passados poucos metros comecei a ouvir “Que paneleiro!”, “Olha, aquele hoje traz calças de mulher!”, “Devias ter vergonha de sair de casa assim!” ou – e deste sei que nunca me esquecerei – “Se fosse da tua família matava-me por ter vergonha de ti!”. Não respondi a ninguém, embora este último me tenha deixado um sabor amargo na boca. Tudo o resto já havia ouvido.

Entrei na sala de aula e as minhas colegas gabaram-me as calças. Os rapazes, por sua vez, seguiram a linha de comentários que ouvira ao entrar na escola. Ignorei-os.

À hora do intervalo percebi que se passava qualquer coisa. Havia burburinho entre os rapazes e uma colega disse-me para não sair da sala. Mas eu saí.

Nos dois lados do corredor havia gente encostada à parede. Percebi o que ia acontecer, e podia ter voltado para trás, mas a vontade de fazer xixi era muita e sabia que esconder-me não me ia trazer coisas boas.

Primeiro passo dado no corredor, primeiro pontapé que recebi. E foi assim até chegar à porta da casa de banho. Pontapés, rasteiras e muitos nomes feios – creio que alguns deles os aprendi nesse mesmo dia.

Havia sido organizado um “corredor da morte” porque eu levara para a escola umas calças verde-alface.

Eu levei pontapés porque tinha umas calças verde-alface.

Eu fui “paneleiro” porque tinha umas calças verde-alface.

Eu devia ter vergonha de sair à rua porque tinha umas calças verde-alface.

A minha família devia matar-se porque eu tinha umas calças verde-alface.

As pessoas deram-se a tanto trabalho por tão pouco…

As minhas pernas ficaram negras e doridas mas ninguém me ouviu um “ai”.

Chegado o fim do dia fui uma vez mais à casa de banho para depois rumar a casa.

Ao tentar abrir a porta, para sair, apercebo-me de que a mesma havia sido trancada. Fiquei trancado na casa de banho.

E do lado de fora ouvia gargalhadas e coisas como “É para aprenderes a deixar de ser paneleiro” ou “É para ver se amanhã te vestes à rapaz”. Porque toda a gente sabe que ficar fechado numa casa de banho sozinho é meio passo para a dita cura gay.

Apercebi-me que os funcionários tentaram irromper no meio dos selvagens que me tinham trancado na casa de banho mas o esforço não foi muito, talvez por medo. Eu também teria medo se andasse na casa dos 50/60, habilitando-me a levar uma tareia de matulões com costas do tamanho de um portão.

E assim foi. Ali fiquei. E uma vez mais ninguém me ouviu dizer nada.

Doíam-me as pernas e aquela coisa da minha família se matar por vergonha ainda ecoava na minha cabeça.

Nesse dia, e para meu azar, a direção estava ausente da escola. Esperei duas horas – sim, duas horas – para que a porta me fosse aberta por parte de um elemento do conselho diretivo. Aparentemente a única figura respeitada por aquele bando de insubordinados (podia chamar-lhes coisas bem piores).

Quando saí, senti-me em Cannes. Toda a gente estava a olhar para mim. Uns riam-se, outros perguntavam como estava e os mais retardados continuavam com o chorrilho de ofensas.

Acho que toda a gente esperava uma palavra. Um “estou bem”, no mínimo. Ou, quiçá, que ripostasse as ofensas. Mas, mais uma vez, ninguém ouviu uma palavra da minha boca. Fui acompanhado pela direção até à saída e corri para casa. Não por medo. Mas porque sabia perfeitamente o que queria fazer depois do que me tinha acontecido.

Quando cheguei contei tudo à minha avó, que prontamente se mostrou indignada e com vontade de ir fazer queixa a quem de direito, em minha defesa. Eu disse-lhe que não. Disse-lhe para não fazer nada. Ou melhor, fiz-lhe um pedido. Pedi-lhe que viesse comigo ao centro comercial. Expliquei-lhe o que queria fazer, e, por ter a certeza de que ela jamais se mataria por ter vergonha de mim, acedeu ao meu pedido.

No dia seguinte, depois de ter ficado com as pernas negras e de ter sido fechado numa casa de banho por usar umas calças verde-alface, entrei escola adentro com umas calças rosa-choque.

As que havia pedido à minha avó.

E desde esse dia os meus problemas na escola atenuaram bastante. Eu dei-lhes o que queriam. A confirmação da interrogação que pairava naquelas cabeças cheias de ar. E não precisei de falar.

Sim. Eu era gay. Sim, eu sou gay. Mas já o era antes das calças verde-alface e gay continuei depois das calças rosa-choque.

Hoje, com 23 anos, consigo distanciar-me o suficiente da situação para perceber que foi resultado da mais profunda ignorância, mas em jeito de remate, caso algum desses rapazes me esteja a ler: a minha família jamais se mataria por ter vergonha de mim. A minha mãe e a minha avó sempre me ensinaram “No dia em que mudares em prol da opinião dos outros, perderás o respeito todo por ti próprio”.

E isto diz tanto sobre as minhas calças.

Ou tudo.