As escolhas que definem uma vida

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Dezasseis de fevereiro de 1986.

Na televisão, comunicavam a vitória de Mário Soares. A minha mãe agarrada à televisão como nunca a tinha visto. Mordia os lábios com força, pois não se podia pronunciar perante a presença do meu pai.

Segundos depois do anúncio, na rua ouvem-se festejos e gritos: “Soares é fixe”. O meu pai na porta de cara fechada. A vizinha chama “Tina, anda para a rua. O nosso lugar é aqui.” A minha mãe segurou a minha mão e a do meu irmão mais novo e levou-nos para a rua. Enquanto corria para as celebrações, gritava a plenos pulmões, ”Soares é fixe”. Na correria, tropeçou num monte de areia e esfolou os joelhos, eu chorava ao ver a minha mãe a sangrar, mas ela, sem nos largar a mão, levantou-se e continuou a correr e a gritar.

Percebi que aquele grito era mais do que um hino à vitória de um político. Era um grito de liberdade, dela e da nossa. Das filhas dela. Das filhas de todas as mulheres que calaram durante muitos anos.

Naquele grito estavam mais do que as palavras proferidas. Estavam silêncios que já não suportava.

O sangue que escorria nos joelhos de minha mãe não tinha a mínima importância. O coração estava livre.

Onze anos depois do 25 de Abril, ainda não era livre.

Mas onze anos depois começou a libertar- se – no dia em que foi votar. Como não sabia ler nem escrever, apesar de reconhecer o símbolo, levou- me com ela e pediu-me que certificasse que assinalava no sítio certo.

Na primeira e na segunda volta, levou-me com ela. “Votei” por ela.

Disse-me que ela já não importava. Mas eu sim. Eu e as minhas irmãs. E todas as mulheres a quem os silêncios estavam a sufocar.

A alegria de a ver feliz permanece no meu coração até hoje.

A força com que agarrou a minha mão, permanece até hoje.

Saiu à rua pela primeira vez com os braços no ar, sempre sem nos largar.

Pela primeira vez, Impôs a sua vontade ao meu pai, mesmo com o recado dele “votas neste, não te enganas”.

Votou por ela. Por mim e por todas.

Gritou por ela, por mim e por todas.

Não queria vestir calças, nunca gostou. Queria, sim, ter a possibilidade de escolher o que vestir.

Rosa, azul, preto, saia, calças, o que quisesse.

Ter a possibilidade era a sua liberdade.

Liberdade que hoje está a ser questionada.

Luta que estão a tentar descredibilizar.

Não é sobre política que vos falo. É sobre a possibilidade que nos deram.

Discurso de ódio não é liberdade de expressão.

Desrespeitar a escolha do outro não é liberdade.

O que eu escolho para a minha vida não deve ser visto como um desrespeito à liberdade do outro.

Dar voz a quem nos quer roubar a liberdade é dar importância ao medo de sermos quem somos.

Somos mulheres. Somos fortes. Somos azuis. Rosa, ou preto. Somos mães, somos amigas, solteiras, casadas, independentes, não somos mães. Somos filhas da liberdade.

Somos filhas dos joelhos esfolados da minha mãe, que naquele dia foram curados pela vizinha que chamara a minha mãe para a rua.

Somos escolhas. Somos a consequência generosa de mulheres que silenciaram durante muitos e longos anos.

Mulher pode tudo.

Porque lutou por tudo até esfolar os joelhos e continuou a lutar.

Dar voz a estas mulheres é um dever. Silenciar o racismo. O machismo. Terminar com a diferença de género e com todas as questões que menorizem o outro é um dever de quem supostamente sabe mais do que a minha mãe – mas que lutou com todas as suas forças.

Dar voz a quem luta pela inclusão.

Retirar a voz a quem luta pela exclusão.

É mais do que um dever, é um rasgar de joelhos até à exaustão.

Pela minha Mãe, pela vossa e por nós.

Não deturpar nem desistir da luta que hoje é mais ou tão importante do que em 1986.

A minha mãe veste azul e mantém os joelhos a sangrar até hoje, quando ainda se prescreve: ”azul é de menino e rosa é de menina”.

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