ARTE DE ENGOLIR PESSOAS por Lúcia Tomás

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Sinto na pele a dor da desumanização laboral. Intimidação, medo, humilhação, precariedade, desrespeito, coerção, entre outras formas de anulação do eu. São conceitos que pautam a minha memória de curto prazo.

 

Prestes a perfazer um ano de trabalho em empresas de prestação de serviços em regime de outsourcing sinto que devo confessar-me.

 

O outsourcing – processo através do qual uma empresa contrata outra para o desempenho de atividades, que a primeira não pode ou não está interessada em desempenhar e em que a segunda é tida como especialista – é visto como um dos mecanismos mais eficazes para a manutenção da economia e estabilização das empresas, uma vez que permite a alocação de mais recursos humanos e tecnologia a um custo mais baixo. A sociedade capitalista absorveu de tal forma este conceito, que nos esquecemos de fazer a pergunta sacramental: qual o preço que cada um de nós paga individualmente pelo outsourcing?

 

Sei qual é a minha quota. Soube-o quase desde que me sentei na cadeira de recrutamento de uma multinacional especialista em inovação e consultoria na área da alta tecnologia e líder em serviços de outsourcing. Saída de uma faculdade de letras e, mais tarde, empurrada para o desemprego, entro, quase por acaso, neste jogo. Ou por ironia. Ou ingenuidade.

 

Numa primeira abordagem, apresentam-me a empresa de uma forma tão inusitada para mim que tudo aquilo me soa a rima, aliteração, assonância, onomatopeia, anáfora, pleonasmo, hipérbole e, por fim, um enorme paradoxo. Perguntam-me quantas línguas falo e se me sinto capaz de gerir algumas questões linguísticas no seio de uma equipa de IT cujo cliente final não fala português. Dez minutos depois (não mais), convidam-me a sair da sala minúscula, agradecendo graciosamente a minha presença. Tenho uma sensação de estremecimento, sinto-me perdida e, no labirinto de corredores, não encontro a saída. Estava capturada, soube-o então.

 

Sou apurada para uma segunda fase. Apresento-me de novo. Ao entrar, sinto-me aturdida pela dança de gravatas periclitante à minha volta. Sinto-me desnorteada pela orgia de números e siglas que ficam encalhados na minha cabeça na tentativa de dar um sentido a toda aquela realidade abstrata. Mais uma vez, tudo me soa a rima, aliteração, assonância, onomatopeia, anáfora, pleonasmo, hipérbole, se não mesmo, uma antítese perfeita. Acontece tudo em simultâneo, não há linha condutora, não há perguntas, há uma informação escassa sobre a minha função que já nada tem que ver com a que me foi transmitida no dia anterior. Uma gravata vermelha fala-me. Apresenta-me um contrato. É pegar ou largar. Eu pego para largar o desemprego. Fico, assim, agarrada a um mal que não é melhor.

 

No momento em que estou a assinar o contrato, percebo que as promessas foram trocadas. A remuneração e a duração do contrato tinham sofrido uma substancial alteração em vista de benefícios para a empresa, resultantes das novas medidas de apoio à contratação. Nesse momento, encaro-me como benefício extra. Extra tudo aquilo que pode interessar-me e ser-me útil. Levo na mão um contrato precário, a perspetiva de um salário que não suplanta o valor do subsídio de desemprego e um punhado de incertezas quanto ao futuro.

 

Não sou piegas. Estou preparada. No dia X entro no cliente da minha entidade empregadora e com o qual esta última está a tentar fazer crescer uma relação. Estou sozinha. Ninguém previu a minha chegada. Ninguém sabe a que propósito ali estou. Explico-lhes de onde venho e a minha condição de mediador linguístico para uma das suas equipas técnicas, mas ninguém reconhece esta necessidade. Os meus olhos perscrutam, inquietos, o espaço em volta que lhe devolve a indiferença, através dos que, alheios e absortos, batucam freneticamente os dedos no teclado sem olhar ao redor.

 

Estou a tentar resolver uma questão existencial que é só minha: a justificação da minha presença ali. O facto de esta empresa estar a pagar pelo meu trabalho à empresa que me contratou, no mínimo, três vezes mais do que esta me paga a mim, mesmo que este trabalho, no fundo, não exista, também me passa amiúde pela cabeça. Ainda assim, parece que este é um problema só meu.

 

O dia chega ao fim. O meu empregador é, neste preciso momento, um fantasma. Não atende telefonemas. Atravesso a cidade. Bato à porta do meu empregador, peço-lhe para me explicar o que se passa. Não sabe. Peço-lhe que tente percebê-lo rapidamente. Coíbe-me de tentar sabê-lo pelos meus próprios meios. Vou embora com medo do futuro.

 

Passaram três semanas. Nada mudou. Ninguém me esclarece. Os mais atentos dão pela minha presença. Sorriem-me esporadicamente. Perguntam-me quem sou. Perguntam-me o que faço. Devolvo-lhes o meu sorriso tímido entre palavras parcas. Estou envergonhada. Não sei o que dizer. Não posso colocar em risco o meu empregador. Podia ter passado estas três semanas fechada na casa de banho a chorar, mas, por pudor, não o fiz. Durante vinte e um dias estive sentada à espera de uma resposta, a da justificação da minha presença ali.

 

Ao vigésimo primeiro dia o cliente manda-me embora a meio do dia. Tudo não passou de um erro, diz-me. Atravesso a cidade com o coração nas mãos. Bato à porta do meu empregador. A dança de gravatas e o uso excessivo de recursos expressivos são substituídos por uma objetividade inaudita. O homem que me olha diretamente nos olhos está a coagir-me. Ordena-me que eu me despeça por vontade própria. Exige-me uma carta de despedimento escrita pelo meu próprio punho, e quando recuso, ameaça-me (e eu que não queria acreditar quando os meus ouvidos treinados pela poesia me devolveram logo no início do jogo a antítese.) As ameaças vêm em crescendo. Oiço “justa causa”. Dá-me uma oportunidade, manda-me para casa pensar e voltar no dia seguinte com a carta de despedimento.

 

Com a máscara no chão, ele dá-me armas. Perco a virgindade neste jogo do outsourcing. O homem que eu tenho à minha frente é o peão de um jogo sujo. É um canalha. Não desarmo. Ele retrai-se. Não quer que eu vá para casa pensar. Quer tempo para pensar na solução. Os canalhas são todos iguais.

 

Volto no dia seguinte. Semi-desculpa-se. Sorri. Traz-me um presente envenenado. Propõe-me um objetivo quase inalcançável. A certificação. É pegar ou largar. Pego por saber que não tenho alternativa. Ele não aceita despedir-me. Eu não posso entrar em batalhas legais. Perdi o subsídio de desemprego no momento em que aceitei esta oferta. Estou sem chão.

 

Passo dois meses fechada dentro de uma sala na sede do meu empregador. Estou sozinha. Atónita. Deslocada. Cumpro zelosamente um horário, mas não sei o que faço ali. Ninguém sabe. O meu empregador deixou de ter rosto. Ele abandonou-me desde o dia em que entrei na sua empresa. O objetivo que ele me propôs era, afinal, apenas um compasso de espera até ao dia em que eu não aguentasse mais.

 

Aguento-me. Não estou sozinha. Encontro, por mim mesma, uma rede de apoio interna. Gente de carne e osso. Gente a sério. Rimos e choramos muito. Sentimo-nos nauseabundos. Estamos desesperados nesta morte lenta, incorporada naquilo a que se chama outsourcing. Onde a cada dia cresce o peso da inutilidade.

 

Forço-me a estudar uma matéria que me leva ao vómito, mas atinjo o objetivo a que a minha empresa me propôs. Mesmo tendo a certeza de que este objetivo não é seu. Desistiram de mim, desde sempre. Obtenho a certificação. Tenho, neste momento, o passaporte para um novo cliente, onde poderei especializar-me nesta minha nova e inusitada área técnica.

 

No dia seguinte, lá estou eu. Por ironia ou não, não existem os meios técnicos nem logísticos necessários para que eu possa explorar os frutos desta minha conquista. O meu empregador demite-se do seu papel, como se ainda tivesse um papel no meio disto tudo. Estou novamente sozinha. Sinto-me miserável.

 

 

Há um mês e meio que estou sentada no mesmo lugar. Continuam a não existir meios técnicos nem logísticos para que eu possa fazer seja o que for. Não faço literalmente nada a não ser esperar que os dias passem. Não encontro um significado para aquilo que estou a viver. Sinto-me vazia. Desespero.

 

Passaram cerca de cinco meses desde que entrei neste jogo. O meu empregador ganha um novo rosto e vem falar comigo. Vem de mansinho, mas a mansidão é falsa. Vem preparar-me para o fim do contrato. Não desisto da luta. Encaro de frente todos rostos que a minha empresa possui e, por um acaso ou descuido, consigo uma nova oportunidade.

 

Estou num novo cliente. O derradeiro. A 300 km de casa. A urgência foi uma condição, e por isso não tenho onde dormir. Entro no único hotel da cidade e aí permaneço durante trinta dias. Acometida pelos sintomas físicos do desespero, daqui para a frente vão faltar-me palavras para descrever a dor.

 

Estou desenquadrada. Mais uma vez não sei o que faço aqui. Desta vez, sinto que basta. Deixo a empresa dias antes de o contrato terminar. Saio, sem nunca ter dado um sentido à minha passagem pelo outsourcing que não fosse o da desumanização laboral, da intimidação, do medo, da humilhação, da precariedade, da coerção e do desrespeito.

 

Tempos depois, por falta de opção, voltei ao outsourcing. Duvidei que pudesse viver momentos tão esdrúxulos como os que vivera tempos antes, mas enganei-me inteiramente.

 

Por tudo isto, começo a acreditar que o outsourcing é um descendente da teoria do caos. E, graças a isso, hoje, tenho a convicção de que se alguma coisa tem a mais remota hipótese de dar errado, certamente dará.