“APANHAR, APANHAR, NUNCA APANHEI”

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Apanhar, apanhar, nunca apanhei. Os meus pais
não eram disso: nem batiam nas filhas, nem se batiam entre eles, mas apanhei em
duas ocasiões em que, fora de casa, fui um dano colateral. Eu, que apesar de
tudo me tenho numa certa conta, não uma, mas por duas vezes, fui um dano
colateral e apanhei umas pancadas bem batidas.

Foram duas circunstâncias muito diferentes, no
princípio da minha vida adulta, em que me vi obrigada a intervir quando dois
casais de namorados, que eu conhecia bem, resolveram começar a bater-se. O
primeiro foi no verão e estávamos de férias – um grupo de amigas. Chegou o
namorado de uma delas, ela saiu para o jardim para falar com ele – não tinha
sido convidado, nem era esperado – e nós, as outras, percebendo que ele não
vinha com boa cara, escondemo-nos numa casa de banho com janela para o tal
jardim e dali assistimos a tudo. Foram gritos e palavras feias, uns empurrões
mas, ao chegaram as estaladas, eu saí do esconderijo para a defender. Levei
logo um bofetão: ela foi mais rápida do que eu, encolheu-se, e a mão dele
caiu-me em cima. Mas não claudiquei. Mantive-me ali, a espernear também com os
braços no ar a ver se não se tocavam, se as mãos dele não chegavam perto dela, escapando
eu própria como pude, pensando que uns treinos de boxe me poderiam ter dado
jeito para fintar ilesa aqueles ganchos que nem sei precisar de que lado vinham.
Eram pesados, isso posso assegurar. E quando o combate estava mesmo a terminar,
ela a perder quase por KO, ele quis aplicar-me um correctivo final… só que,
não sei de onde veio a inspiração, dei um salto tipo Kung Fu, enrolei o corpo
por cima do capôt do carro dele – era um Fiat 127 –  penso até que lho tenha amachucado mas, como
uma praticante de artes marciais que nunca fui, saí do outro lado impecável a tempo
de fugirmos as duas e escondemo-nos dentro de casa. Se o carro sofreu,
paciência, antes assim.

Uns anos mais tarde, a coisa foi mais complexa
ao nível das fintas. Não tive como escapar. Fui chamada de urgência a um T1,
quarto e sala apenas sem varandas, onde um casal se digladiava. Primeiro, foram
só palavras, mas rapidamente a coisa rodou para estaladas, murros, empurrões,
dentadas e arranhadelas e eu no meio, a fugir de uma divisão para a outra,
apanhando de um lado e do outro e sem maneira de escapar. A casa era isolada, a
noite ia alta, não havia telemóveis, nem Ubers, nem táxis que me salvassem. O
casal ficou bastante amachucado, mas tive que esperar que se cansassem da
pancadaria para, no final, já como se nada tivesse acontecido, me terem levado
para casa dos meus pais. O dia já ia avançado e ainda tive que ouvir um
raspanete: aquilo não eram horas de uma menina entrar em casa.

Penso poucas vezes nestes dois acontecimentos.
Foram demasiado traumáticos, até para mim. Felizmente, nos dois casos, as
pessoas em causa separaram-se e, que me conste, as minhas amigas não voltaram a
apanhar de ninguém. Pensei então que o assunto estava arrumado para mim. Nunca
apreciei pugilismo e só voltei a contactar com a modalidade nalguns filmes de
boxe, imperdíveis, com enredos e actores que muito aprecio.

Depois, comecei a pensar na minha vida –
aquelas pessoas a quem isto tinha acontecido, e que eu tinha presenciado, eram
tal e qual como eu, passe a imodéstia, meninas bem nascidas, cultas, livres e
independentes. E vieram-me à memória não frases batidas, como canta Sérgio
Godinho, mas frases soltas e sussurradas na minha casa: a história (verídica
com factualidade provada em tribunal) de um príncipe italiano, um verdadeiro
homem da renascença que, em pleno século XX, socava a mulher, que era minha
parente, e saía depois para mais uma rodada de aristocracia por essa Europa
fora. Ela morreu, tanto quanto sei, de desastre de automóvel, e o príncipe,
apesar de príncipe, foi escorraçado deixando, não sem luta e muita diplomacia,
os filhos para trás. Foi o melhor que lhes aconteceu. Eh lá, pensei: afinal a
minha família também não é imune a isto. E de novo recordei frases soltas e
pouco explícitas que ouvi na infância sobre pessoas da geração dos meus avós,
pessoas nascidas ainda no século XIX, e tive a certeza que algumas dessas
mulheres tinham apanhado e que não tinha sido nada pouco. Pessoas a quem,
nem na velhice, que costuma soltar a língua e as memórias antigas, ouvi um
queixume. Como se fosse normal aquilo por que tinham passado, tão normal que
não merecia referência não fossemos nós, as gerações que lhes assegurámos a
posteridade, ficar a pensar alguma coisa menos boa dos déspotas da pancadaria. Tudo
no masculino.

Na geração abaixo, onde também houve vítimas, o
mesmo. Silêncio absoluto. Um olhar para o lado como se nada fosse, como se o
fado destinasse as que estavam destinadas a apanhar estaladas. Passe o pleonasmo. Um silêncio só quebrado quando,
para qualquer tipo de castigo que fosse, já era tarde demais.

Desde então, conheci mais casos: amigas que
passaram noites fechadas nas garagens de suas casas para não ficarem longe dos
filhos, apenas dos tabefes; amigas que destruíram as suas carreiras e que até
de cidade tiveram de mudar; uma amiga muito bem casada e que um dia, sem poder
mais com as dores, me mostrou as horríveis nódoas negras nas pernas, costas e
barriga. A cara impecável, uma aparência de felicidade, e o corpo escondido
pela roupa numa desgraça tão feia de ver como de conhecer. E… e… e mais casos,
e mais pessoas, e mais situações.

E há dias, duma amiga recente, dona de uma luz
interior e de uma força extraordinárias, recebi uma espécie de carta, vá, quase
um postal, daqueles antigos em que brevemente se dava notícias das viagens e
onde se viam panorâmicas bem bonitas dos sítios visitados. Neste caso, a
“vista” era a da sua cara desfeita e fotografada mais o relato, não de um
passeio, mas de ossos partidos e de uma violência também psicológica sem
sentido. Ela está longe, noutro país e noutro continente, mas daqui, da minha
casa e da minha Lisboa, queria escrever-lhe publicamente que está comigo, tem
estado todos os dias comigo, no meu pensamento, no meu coração e que, se sou
impotente para na prática a ajudar, não sou impotente para falar dela, do
trabalho que no país dela e aqui tem feito por quem precisa, e que preciso dela
em segurança para lhe agradecer por isso. Não vou dizer o seu nome, a história
não me pertence, mas queria deixar dito neste texto que lhe dedico que, desde
que a conheci, entrou mais sol na minha vida.


Apanhar, apanhar, nunca apanhei, mas sinto as suas dores como se a mim me tivessem batido. Vem depressa. Estamos à tua espera.

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