ALMA(S) GÉMEA(S)

673

Desde muito cedo, a ideia de alma gémea vai penetrando o nosso imaginário por via das diferentes formas de socialização. Quer através dos contos de encantar que a avozinha nos lê antes de dormir, quer nos enredos dos filmes que passam na TV nas matinés de domingo, somos constantemente cotejados pelo sonho do encontro com outra pessoa que nos estará destinada: «a donzela X irá encontrar o príncipe Y, a sua cara-metade». A metade da laranja ou o mais-que-tudo, a tampa do tacho e não sei mais quantas expressões que nos ajudam a criar a imagem de um ser perfeito, idêntico a nós e que se encaixa meticulosamente no nosso modo de ver a vida. Só pensar na ideia faz-nos logo suspirar e ficar cheios de borboletas no estômago, verdade?

Nada contra esta representação de alma gémea em forma de príncipe encantado montado no cavalo branco à espera para nos salvar. Aliás, sou uma romântica por natureza. Mas, e se pensássemos nisto de uma forma ainda mais rebuscada? E se, em vez de uma alma gémea, tivéssemos várias? Se essa cumplicidade e complementaridade não se esgotassem no amor conjugal, mas noutras formas de nos relacionarmos com os outros que habitam a  nossa existência – pais, irmãos, cônjuges, amigos, professores, colegas, vizinhos, conhecidos, desconhecidos? E se, essas pessoas «gémeas» fossem aparecendo, cirurgicamente nas nossas vidas – umas somente passando, outras ficando mais um pouco – no final, a viagem é solitária – com o propósito de nos ensinarem alguma coisa?

Gosto de acreditar que conto com as minhas almas gémeas – presunçosamente creio que arranjei as melhores do mercado – e estando atenta, consigo identificá-las no meu percurso. Algumas já pertencem ao passado, outras estão ainda para me aparecer e dizer – sem ser necessário proferir uma só palavra – que são feitas da mesma matéria do que eu. Há seres que nos fazem sentir que existe uma conexão genuína e, nesses instantes, voltamos a acreditar numa espécie de amor à primeira vista, como nos dizia o génio Vinicius*: “A gente não faz amigos, reconhece-os”.

Parece que o mundo é um moinho – também ouvi isso numa canção** – e, por vezes, maltrata os sonhos e tracciona as nossas forças. É aí que entram em cena as almas gémeas – a maioria, nem tendo consciência do seu papel – porque são incansáveis na tarefa de não nos deixarem cair, lembrando-nos o quanto valemos, quando nos esquecemos de que somos especiais.

Um olhar, um sorriso ou uma mensagem são suficientes para que a telepatia se materialize. Almas gémeas… gosto tanto de me cruzar com elas.

 

*Vinicius de Moraes

** O mundo é um moinho – composta por Cartola e interpretada por Cazuza, Ney Matogrosso, entre outros.

http://celestices.blogspot.pt/