ALMA RASGADA

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Pediu-me para falar. Eu, que naquele dia não queria ouvir ninguém, fiz um esforço, porque senti que ela precisava.

– Não vale a pena, menina. Fala-se de violência doméstica, discute-se, criam-se leis. Não vale a pena. Enquanto não se cuidar da alma que foi arrancada, não vale a pena. Eu sei do que falo. Foram trinta anos a levar porrada. Trinta anos! Não sei como não morri. Também não sei como não o matei!

Tenho 84 anos… Sabe quantas vezes, ainda hoje, penso que devia de o ter matado!? Matar-me, não. Jamais! Matá-lo sim! Tive pena dele. Tanta pena dele. E de mim ninguém teve pena! Só diziam que tinha de aguentar. Era o meu destino. Não acredito em nada. Nem no destino. Nem em nenhuma crença que me foi metida na cabeça vezes sem conta.

Homens? Conhecer, amar e foder. Assim, sem mais nem menos. Deve de os haver bons. Não sei. Para mim só conheci um tipo de homem. O que Quer. Pode e manda. Ele pôde tudo, o tempo todo. Mas só teve o meu coração uma única vez, e esse ainda o manteve sem uma nódoa negra, porque está escondido. Senão também tinha levado pontos. Mas tenho marcas que ninguém mas pode tirar. Psicólogo? Nesta altura, só contando a minha vida a meninas como você que têm a vida pela frente, a minha vida já ficou lá atrás. Valeram-me os filhos. Tratar deles era a minha cura. Eles também me ajudaram muito, menina. Dei-lhes amor. O amor que eu sabia dar.

A primeira vez, tinha acabado de chegar a casa do trabalho. Ele saía mais cedo do que eu porque eu tinha três trabalhos, ele tinha só um. Arrancou-me a blusa, queria certificar-se de como eu chegava a casa. Se tinha sido como tinha saído. Todos os dias, isto, durante trinta anos.

Hoje é diferente!

Diferente do quê? Eu não vejo e ouço, na rua, nos telejornais, na rádio, até aqui nos vizinhos. O fulano gosta muito dela, são ciúmes. Não são. Eu sei do que falo. Chama-se desrespeito. Falta de amor e sentido de posse. Olhe que eu não tenho muitos estudos, menina. Mas a vida aconteceu-me. Este traste aconteceu-me.

Eu era tão bonita e forte. Nada me derrubava. Chorava as mágoas na almofada e o dia a seguir era sempre mais uma oportunidade. Eu parava o trânsito, como se costuma dizer. Acha que isso me importava?! Nada! Mas a ele sim. Os fracos definem-se pelo que acham dos outros, menina, olhe para o que lhe digo. Ele percebia a minha força, em casa, na rua e no trabalho e eu era um alvo a abater. Batia e batia.

Batia porque a comida não tinha sal.
Batia porque o clube dele tinha perdido.
Batia porque o dia não lhe tinha corrido bem.
Batia porque a vizinha tinha dito bom dia.
Batia porque sim.
Batia porque não.

Hoje é diferente de quê? Veja as notícias e diga-me onde está a diferença.
A diferença está no estatuto social. Nos estudos. Os agressores são sempre vítimas, já viu?

Se eu o tivesse deixado, para onde ia com os meus filhos? E agora, para onde vão elas? Eles são sempre vítimas, elas é que têm de fugir.

Fortaleça a alma a uma mulher e ela comandará uma nação, sem dinheiro ela fará o pão.

Sabe do que me arrependo? De não o ter deixado. Tive pena. É um coitado. Um Zé Ninguém.

Já não me toca há outros trinta anos. Se me tocasse, juro que o matava.

Não vale a pena, menina. Antes sozinha e fortalecida. Mas se os conselhos fossem bons eu estava rica.

Mas dêem ajuda a estas mulheres. Tirem-nas do chão. Remendem-lhes a alma.

Fortaleçam a alma a uma mulher e ela sem dinheiro fará o pão… porque o colo elas já o dão.