AJUDAR por Sara Wunderly Gomes

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Fotografia eloquenceinc.com

Ajudar

Verbo maravilhoso, tão bom de conjugar, de usufruir, de exercer, mas com tão defraudado uso.

Tenho 42 anos e cedo me deparei com esta deformação verbal. Não em termos profissionais – ocupo-me de palavras e de frases que se conjugam em histórias; trabalho narrativas e testemunhos que não se encerram em livros, pois os livros apenas as registam e as fazem perdurar. E é nestas e na minha própria história que me vejo em luta permanente com a errada conjugação deste verbo.

Palavra tão bonita – ajudar –  que nos remete para o universo do bem, de o fazer, mas que uma maioria teima em aplicar erradamente. Tal acontece quando se referem à vida «em comunhão». Ora aí está: esta oração tem dois sujeitos, mas nada tem a ver com subordinação. Mais: ajudar é um verbo que assenta e dá enfâse ao complemento indirecto – ajudamos sempre alguém. Mas não implica nunca que esse «alguém» seja subordinado, nem que quem ajuda seja subordinador.

É aqui que reside a minha questão. Há quem me ajude, tal nunca me faltou e sou infinitamente grata por isso. É tão bom ser alvo de ajudas. Não é isto, calma. O problema é quando esta ajuda é erradamente atribuída a acções primordiais desempenhadas por alguém que tem tanta competência e o mesmo dever que eu de as cumprir. Sim, é isso: a casa, os filhos e afins implicam que as duas pessoas que lá vivem desempenham várias acções essenciais em consonância. Mas não – nunca! – em subordinação, em que um será o sujeito e o outro o complemento indirecto – errado! Esta oração tem, sim, dois sujeitos.

Fico revoltada quando ouço que «o marido dela é um óptimo rapaz! Leva os miúdos ao parque, dá-lhes banho, e também ajuda em casa! Olha, aspira e passa a ferro, vê lá tu! Ela teve uma sorte!» Frases como esta, que já ouvi, e continuo a ouvir, vezes demais, são prova de que há ainda um longo caminho a percorrer. Não há tarefa doméstica ou parental que seja exclusivamente feminina – facto. Homem que se dedique a trabalhos da casa e da família não está a ajudar a mulher. Facto – NÃO, não está. Está, SIM, a cumprir com o que uma casa e uma família exigem.

Há que dizê-lo bem alto e dizê-lo muitas vezes e a tantas pessoas: o homem não ajuda a mulher – este conceito é tão, mas tão errado; o homem cumpre a sua função na casa e na família. É assim e é bom que este papel se espraie por todo o leque de tarefas inerentes à casa e à família onde se insere. Mas nunca como ajudante, sempre como sujeito.

O número e variedade de funções que as mulheres desenvolvem e assumem a cada dia, semana, mês, ano – na vida! – fazem com que o verbo «ajudar» pareça pequeno. Porque a mulher é enorme. Porque a mulher é capaz. Capaz de tanto. Mulher-cidadã, mulher-profissional, mulher-mãe, mulher-palhaça, mulher-amante, mulher-amiga, mulher-cozinheira, mulher-confidente, mulher-organizadora, mulher-gestora, mulher-mulher.

Ao termos um companheiro, alguém que, tal como nós, se assume como sujeito da oração comum, seremos capazes de mais ainda. Somos grandes. Se quem connosco divide a oração comum e procede como ajudante, na suposição de que casa e família são «fardo» nosso e ele apenas ajuda, quando e se puder, este indivíduo estará irremediavelmente privado da grandeza da mulher com quem vive, pois não é capaz de a dimensionar, menos ainda de a desfrutar.

Talvez seja por isto – pela nossa grandeza, que inspirará alguma fraqueza masculina – que muitos homens prefiram remeter-se à condição de «ajudantes».

A ajuda será sempre bem-vinda, mas não neste enunciado.

Sara Wunderly Gomes

11 de Dezembro de 2014

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