AGORA A MAMA É PARA O MARIDO!

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Ser mulher é, de facto, um trabalho a tempo inteiro. Estamos constantemente a sofrer na pele o escrutínio alheio, especialmente sobre os nossos corpos, e nenhuma parte é tão escrutinada e foco de polémica como as mamas.

Ora porque são grandes, ora porque são pequenas, ora porque se mostram, ora porque se escondem, ora porque os mamilos são saídos, escuros, grandes ou pequenos demais, ora porque uma mama é maior do que a outra, ora porque estão demasiado caídas, ora porque estão demasiado levantadas, ora porque são falsas, ora porque são naturais… Enfim, opiniões não faltam!

É engraçado como um pedaço de gordura, glândulas e veias tem o poder de gerar tanta polémica.

Houve um tempo em que tive complexos com as mamas que a natureza me deu mas ser mãe, felizmente, curou-me. Neste momento as minhas mamas são eficientes produtoras e armazenadoras de leite e funcionam bem.

Fizemos as pazes!

Passei pelo processo que a maioria das mulheres grávidas passa: as consultas, os conselhos, a pressão. A amamentação é recomendada pela OMS até aos dois anos de idade da criança, mas isso não pode eliminar a escolha da mulher. As mulheres que não querem, não podem ou não conseguem amamentar têm todo o direito de se recusarem a fazê-lo sem se sentirem mães falhadas. O leite materno é o alimento ideal para os recém-nascidos mas não é o único alimento disponível e existem muitos fatores a considerar na hora de decidir. Amamentar é brutal, exigente e cansativo, especialmente nos primeiros meses. Nem toda a gente é igual, nem toda a gente quer as mesmas coisas ou tem as mesmas prioridades, e isso não nos torna melhores ou piores que os outros: apenas diferentes. Não é justo que uma mulher se sinta menos mãe ou menos mulher por não amamentar o seu bebé.

Depois, quando o bebé cresce, o mundo vira-se ao contrário. Apesar da OMS aconselhar que dês mama pelo menos até aos dois anos de idade da criança, a pressão inverte-se em todo o lado, seja na rua, no seio da família ou até mesmo no consultório médico. Comigo aconteceu depois da minha filha fazer um ano. De repente, passas a ser a freak que ainda dá mama à garota, que até já fala e anda sozinha.  És a louca que vai ao berçário no intervalo de almoço só para dar mama a uma criança com mais de um ano, a louca que acorda durante a noite para dar de mamar sem ser necessário, a louca que não recusa mama e que não se enfia num WC para amamentar.

Começam então os comentários fofinhos, primeiro de mansinho, e depois como uma avalanche:

“Isso agora é só vício!”

“O teu leite já é só água!”

“A miúda vai ficar com problemas psicológicos”

E a minha favorita:

“A mama agora é para o marido!”

Incrível. Mesmo quando a mama é LITERALMENTE um meio de alimentação para um bebé, há quem a sexualize. Reparem, se pensarmos de uma forma prática, as mamas não têm mais a ver com o sexo do que qualquer outra parte do corpo. Não vou entrar em pormenores, mas usem a vossa imaginação e verão que tenho razão. E se seguirmos a linha de pensamento conservadora, olhando para o sexo como uma mera atividade reprodutiva, chegamos a uma conclusão evidente: ninguém engravida pelas mamas, logo, a sua função não é primordialmente sexual.

Então porque raio amamentar um bebé é visto por alguns como algo obsceno?! Porque raio, na nossa mente, é mais razoável dar aos nossos filhos leite de um animal qualquer do que deixá-lo consumir o leite que o nosso corpo produz, totalmente adaptado à nossa espécie? Porque raio é considerado nojento para algumas pessoas ver um bebé de dois anos mamar, mas já é perfeitamente normal consumir leite de vaca, muitas vezes extraído às custas do sofrimento do próprio animal e dos seus filhos?

Por tudo isto continuo a seguir a máxima “vive e deixa viver”. Provavelmente, a malta da OMS estudou bastante este assunto antes de opinar sobre ele. Se aconselham a que se amamentem as crianças pelo menos até aos 2 anos de idade, lá terão as suas razões e, como gosto de amamentar, e a minha filha gosta de mamar, acho que vou continuar a ser a maluca das maminhas.

Sem julgamentos, sem culpas, sem vergonhas para quem faz opções diferentes da minha. Porque vivemos em liberdade.