Abstenção

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Vivemos num estado democrático e ainda bem que assim é. Temos opções, podemos escolher e intervir na vida pública. Pressupõe-se que esta possibilidade, não seja apenas isso, uma possibilidade sem materialização concreta.

A democracia abre a porta à participação pública em todos os sentidos, os cidadãos podem intervir, podem fundar sindicatos ou partidos, grupos de apoio, apoiar causas, debater questões, organizar-se pelo bem da comunidade, comparecer nas reuniões de câmara e freguesia e participar ativamente na vida da comunidade. A democracia dá-nos isto tudo e deu-nos também a possibilidade de votar.

O voto é um direito e uma obrigação, sem que haja uma obrigação mandatória efetiva. O voto está dependente da participação cívica que nos dá a liberdade em que vivemos. Mas nem sempre foi assim aqui, e não é assim em todos os locais do mundo. O direito ao voto é uma conquista recente, não é um dado adquirido.

Ficamos confortáveis quando achamos que o que temos é certo e seguro: aquele emprego com ordenado fixo ao fim do mês, a casa, o carro, um país em paz onde não acontecem atentados, onde ter acesso a armas é um processo complicado e não acessível a todos, onde podemos recorrer a um hospital sem precisar ter um seguro de saúde, um sitio onde temos acesso a escolas, cultura e atividades livremente… um sitio onde pagamos muitos impostos, onde os políticos e empresários se têm relevados corruptos e de pouca confiança mas apesar de tudo, um bom país para viver.

Todos temos consciência que a corrupção é um problema real e que precisa pulso forte para se resolver e que a justiça não pode ser branda, nem com a corrupção nem com outras questões mais sensíveis como a violência doméstica. Porque vivemos em democracia, podemos indignar-nos em relação a estas questões e todas as outras. Quando votamos estamos a expressar a nossa vontade, quando não votamos estamos a desresponsabilizar-nos desse nosso papel, conquistado com o esforço e a vida de outras pessoas.

Que sabemos nós disso? Nós que sempre vivemos em democracia e liberdade? Nada. Nem queremos saber, nem sequer nos conseguimos pôr nesse papel, parece tão irreal como a existência do holocausto. Que sabemos nós disso? Não passámos por isso… mas conseguimos indignar-nos com a fome e com isso tornamo-nos voluntários para alimentar os sem-abrigo. Mas não votamos mesmo sabendo que outros morreram para que tivéssemos esse direito…

Desde que voto que participo e sou nomeada para estar presente na constituição das mesas de voto, em qualquer uma das seções de voto da minha freguesia. A minha freguesia é grande, e o que acontece na maioria das eleições é ver-se as pessoas mais velhas a votar. As mesas onde habitualmente votam os eleitores mais velhos (quando ainda se organizavam os cadernos eleitorais por número de eleitor) têm sempre maior número de votos, o que me diz claramente, que os mais velhos são mais zelosos das suas responsabilidades cívicas e sociais, acima de tudo, sabem o que lhes custou chegar ali.

No domingo dia 26 de maio vi uma senhora muito velhota a votar, uma senhora que mal andava, que se arrastou com esforço e tenacidade para votar, que suportou os quase trinta graus de temperatura para cumprir o seu dever. Quando estava de saída, o filho que a acompanhou perguntou-lhe: “então já está descansada?”. Ela sorriu por entre o suor e o esforço e eu senti um misto de vergonha e emoção.

Emocionei a ver que ainda existem pessoas que compreendem a importância do voto e do seu papel cívico e que no polo oposto a esta senhora, estão as outras pessoas que se dão ao luxo ou como preferem deixar registado – o direito a não votar – só o fazem porque existem pessoas como esta ela, que lhes deu esse direito e que continua a fazê-lo todas as vezes que vota.

Sim, vivemos numa democracia e por isso, lembrem-se omissão nunca gerou mudança na vida de ninguém. Todas as vezes que não votarem estão a omitir-se de fazer parte da mudança, acima de tudo, estão a omitir-se da construção de um futuro melhor.