A vítima é a única inocente

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É difícil provar que alguém sofre violência doméstica se essa agressão não deixar marcas visíveis aos olhos de quem não quer ver.

A violência doméstica começa sempre pela violência psicológica e, muitas vezes, a própria vítima não percebe. Ela vem disfarçada de ciúmes, de querer bem, de amor e de carinho, seguida de ”eu não quero que faças ou digas isto”, ”por nós, pelo nosso amor”.

O amor cega a vítima que acredita no que lhe é dito, mesmo que não acredite que o amor seja exigência, poder, e que para o amor funcionar, alguém tem de deixar de ser.

A violência doméstica é mais do que a bofetada (que toda a gente vê), e é aquilo que ninguém vê – nem a vítima.

Acreditar em alguém que sofra de violência doméstica sem ver nódoas negras é difícil para quase toda as pessoas. Só quem conhece a vítima percebe a alteração comportamental e nem sempre. A vítima aprende a defender-se por vergonha, por medo, por todas as razões e mais algumas que muitos desconhecem.

O lugar do outro é muito difícil.

Podemos não ter discernimento para acusar ou defender a outra, o outro e aprendamos, pois, a defender e a socorrer quem amamos e quem nos rodeia e seja vítima de violência doméstica.

Até decidir pedir ajuda, a vítima já foi maltratada na sua alma, na sua condição de ser humano e na sua simples existência.

Existe porque os amigos, a família e os filhos exigem que ela exista. E ela existe por eles.

Carregadas de medo, vergonha, vão vivendo até já não suportarem mais.

Queixas, fuga, a culpa que sentem junta-se à culpa que lhe atribuem. Carregam um coração partido e a única coisa que querem é viver.

Viver em paz.

Procuram ajuda a quem supostamente tem o dever de ajudar.

As leis estão aí para serem postas em prática. Demoraram a chegar mas chegaram.

Mas quem julga tem crenças e ideais que nem sempre vão de encontro aquilo que a lei diz.

Infelizmente acontece muito. Somos todos humanos…

Depois do julgamento “público”, vizinhos, amigos, conhecidos ou simplesmente alguém que gosta de opinar, vem o julgamento dos tribunais e muitas vítimas não querem este julgamento, só quando não encontram paz.

Onde vão buscar a paz encontram o pesadelo.

A vida é revirada vezes sem conta e até mesmo o que quis esquecer é obrigada a lembrar.

A dor volta. Volta a existir pelos outros. Não tem culpa. Mas o agressor é inocentado. Elas não matam, mas moem. A vítima volta a existir, moída. O coração partido.

E nós, os comuns mortais, só podemos pedir que a vítima viva.

Que viva em paz.

Que consiga, mais do que existir, viver.

Que consiga sentir que não tem culpa, mas apesar de não existir legalmente um culpado, ela já não é vítima graças à força e determinação dela.

Existem olhos que não vêm, mas o nosso coração sente.

Que todas as vítimas consigam viver mais do que existir.

O amor salva. Tem de salvar.
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