A NEGRA NO FOGÃO, A MULATA NA CAMA, A BRANCA NO ALTAR

2974

Lembro-me perfeitamente das aulas de Introdução
aos Estudos Literários. Quem, como eu, tenha tido a sorte de se cruzar com o professor
diplomata, emprestado ao ensino por escassos anos, não se pode ter esquecido. O
professor era sábio, distinto, o professor sabia as artes da sedução e
provocava, enquanto se passeava de um lado para o outro em frente ao quadro,
lançando perguntas para a sala. Uma das que mais celeuma levantou foi aquilo a
que hoje chamaríamos a discussão sobre o ovo e a galinha. Perguntava ele, com o
charme a que respondíamos com alguns suspiros e muito desejo de agradar, se
havia pensamento sem linguagem. Ele perguntou, é certo, nós respondemos, mas a
pergunta era, para ele, meramente retórica. Ele sabia – como autores que transformaram
a minha vida, e vou falar só de uma que é a Julia Kristeva – que pensamento e
linguagem são indissociáveis, e que o primeiro não se estrutura sem a segunda.

Isto dito, e mais umas aulas e leituras
adiante, depressa percebemos que o conhecimento de uma língua nos leva ao
conhecimento da forma de pensar e sentir dos seus falantes, da realidade social
que os rodeia. À época, e ainda por causa de Kristeva, dava-se sempre o exemplo
das línguas nórdicas que, por convívio com a neve em vários estádios, têm uma
paleta de palavras para designar aquilo que para nós é só o branco. Da mesma
forma, temos o verde azeitona, realidade importada noutros sítios pelo que lá não
serve como referente para nada.

Kristeva ainda, sempre ela, explica que a
“prática da linguagem [é] objecto de uma ciência particular, matéria onde se
constrói o sujeito e o seu conhecimento”.

E eu estudei bem a matéria, e penso agora sobre
ela, quando me detenho em comportamentos e frases racistas de pessoas que
recusam assumir-se como tal, apesar de pensarem que a nacionalidade ou a
pertença se define pela cor da pele. Diria Pessoa, “a minha pátria é a língua
portuguesa”.

E foi com a língua portuguesa que aprendi a
adjectivar como “língua de preto” frases sem sentido ou ditas com pronúncia que
não a esmerada pronúncia imperial. É em português que ouço frases, provérbios e
palavras repetidas à toa como se eles não tivessem atrás de si uma subliminar
ideologia racista. Não somos nós, os brancos que falam português, que se
referem aos outros falantes da mesma língua, sem a branca/beije cor de pele
“oficial”, como os “escuros”, os “escarumbas”, os “pretos”, a “mulatagem”, a “pretalhada”…
nasçam lá eles onde tiverem nascido, falem eles que língua falarem porque  “sabão não branqueia preto de nação?”.

Não é verdade que na nossa língua tudo o que é
mau e feio se apresenta com pinceladas
de breu? É o mercado negro, a lista negra, a magia negra, a ovelha negra, o que
é feio como um tição. Mas a prática da língua não é discriminatória e
racista… claro que não, até tem palavras para enunciar esse mundo de trevas e
negredado que nos dispensamos de conhecer: a “vida negra” ou, como diriam os
nossos amigos brasileiros – brancos, claro – “o trabalho foi feito para três.
Preto, burro e português”.


Só que há que manter as distâncias, e a língua portuguesa, fá-lo como ninguém: “Em briga de branco, preto não entra” e quando  “o meu preto não gosta de favas, favas no preto” até porque, infelizmente, “não há geração sem preto nem ladrão”, uma tristeza só compensada pelas artes viciosas das mulatas e da força bruta das pretas. Não esquecer que, apesar de tudo, “mais vale morena engraçada do que branca desconsolada.”

Ler artigo completo ...