Quando estar grávida não é incrível

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Chama-se Jéssica mas podia chamar-se Rita. Ou Paula ou Cristina. Isabel ou Fátima. Chama-se Jéssica e é um acaso. Os milhares de seguidores só a tornam mais visível e alvo de escrutínio. A Jéssica foi mãe. E não teve pudor em dizer que estar grávida não é uma coisa incrível para todas as mulheres. E não é. E muitas calam essa pouca alegria das pernas inchadas, do umbigo dilatado, dos enjoos matinais, das mudanças de humor, da roupa que aperta e do peso constante na bexiga. Porque é uma dádiva e um via dolorosa para se chegar ao que de melhor a vida pode dar. Mas a vida é dolorosa. E mandar calar um percurso que nem todas as mulheres apreciam, e estão no seu direito, é aniquilar a liberdade individual da real proprietária do seu corpo e a mais genuína detentora da consciência própria. Sem pejos, assumamos: estar grávida não é a melhor coisa do mundo. E uma mãe feliz é uma mãe que não teme o olhar de repreensão ou a crítica pública quando diz “não estou a gostar de estar grávida”. Uma mãe feliz é aquela que assume que a gravidez nem sempre traz tranquilidade e que tratar a ansiedade conexa é sinal de maturidade e sanidade suficientes para pedir ajuda.

A saúde mental continua a ser aquele tabu invisível, escondido no armário, de que poucos falam, que muitos escondem, que poucos entendem ou respeitam. A vergonha da dor invisível e que chega quando menos esperamos. Mas ela existe e é real e causa ferida mesmo naquele que, social e culturalmente, deveria ser o período mais feliz de uma mulher. Mas não é. A Jéssica, que podia ser Rute ou Inês, confessou: tomou antidepressivos durante a gravidez. Não fez mal algum. Tratou-se. Tentou serenar-se. Investiu na calma que precisava. Aplausos e jamais apupos.

A Jéssica, que podia ser Carla ou Teresa, mostrou a felicidade de um filho nos braços e a desolação das hormonas que teimam em cavalgar livremente pelo corpo trazendo lágrimas depois de euforias, duplo queixo e narizes abatatados. E não há que ter compaixão ou repúdio. Muitas calaram o que a Jéssica espalhou pelo mundo. E espalhar é rotinar. Partilhar é vulgarizar. Contar é suavizar. A Jéssica, que podia ser Joana ou Sónia, fez um favor a todas aquelas que, como ela, são tão somente mulheres.