A Bella Culpa

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Muito se tem falado de Bella Thorne, nos últimos tempos. A atriz, que ficou conhecida pela personagem Cece Jones na série da Disney Shake It Up (2010-2013), viu a sua privacidade usurpada por um hacker que ameaçou divulgar as fotografias íntimas da artista. No entanto, contrariando o controlo abutre do pirata informático, Bella decidiu divulgar as suas próprias fotografias íntimas. Louvável, corajoso, digno de uma ovação, diria eu.

Mas a polémica conheceu o seu auge quando a aclamada atriz Whoopi Goldberg decide atribuir responsabilidades a Bella Thorne. Ora, o que não falta são adeptos desta teoria. Sempre assim o foi. Diz-nos Chimamanda Ngozi Adichie, em Todos Devemos Ser Feministas, que os “nigerianos foram criados para achar que as mulheres são inerentemente culpadas”. Mas, se me perguntassem, diria que a crendice “mulher culpada” se estende a toda e qualquer parte do globo. Portugueses, estado-unidenses, australianos, russos, italianos, angolanos, vietnamitas, chineses e quantas demais nacionalidades existirem mundo fora.

Recordemos a jovem que foi encontrada seminua na Queima do Porto no passado mês de maio. Não faltou a enxurrada habitual de comentários nas redes sociais com os típicos “Ela é que se pôs a jeito”, “Não bebesse demais”, ou o clássico em casos de violação “Não saiam vestidas que nem putas. Elas é que provocam”. Certo é, que esta coisa das necessidades masculinas aliadas a provocações femininas habita o nosso quotidiano já há um bom tempo. Culpamos a vítima, absolvemos o criminoso.

E as palavras de Whoopi Goldberg só alimentam esta ideia cavernosa e misógina. Misógina porquê? Quando Justin Bieber teve as suas fotografias íntimas expostas na Internet, alguém lhe atribuiu culpa? Ou a Dylan Sprouse? A Leo Stronda, talvez? Claro que não. São homens. A menos que um homem veja divulgado um vídeo íntimo seu, em que neste existam atos sexuais homossexuais, não há problema. É que esta coisa de estímulos anais, por exemplo, já choca com a virilidade masculina, pelo que, nesse caso, o protagonista já pode ser ostracizado à vontade.

Mas mais grave: a divulgação destes vídeos culmina, vastas vezes, no suicídio. Tiziana Cantone pôs termo à vida ano e meio depois de um vídeo sexual no qual figurava, ter sido divulgado sem o seu consentimento. Um ano e meio em que foi vítima de escárnio misógino, da culpa que lhe imputaram, da paródia abjeta na qual transformaram a sua dignidade. Tal como Karina Saifer Oliveira no Brasil, Amanda Todd no Canadá ou Tovonna Holton nos Estados Unidos. As três últimas viram no suicídio o único refúgio para a vergonha que lhes esmagou a vontade de viver, com apenas 15 anos de idade.

Vivemos nesta redoma hétero-normativa que culpabiliza as mulheres por terem líbido, por viverem a sua sexualidade em pleno. Nunca os homens. Os que abusaram e traíram a confiança que lhes foi depositada e que divulgam fotografias e vídeos íntimos. Esquecemo-nos facilmente de que o crime não foi feito por quem enviou as fotografias mas antes por quem, a dada altura, tão prontamente os recebeu, gozou, e se por acaso se viu rejeitado, os divulgou sem consentimento, numa total violação da lei. No caso de Bella Thorne, segundo Whoopi, é preferível apontar o dedo à atriz por viver a sua sexualidade, do que criminalizar os piratas informáticos parasíticos que tentam extorquir dinheiro à custa da privacidade alheia. Habituámo-nos a campânulas puritanas que escondem e reduzem o que nos é de mais inerente e natural: o sexo. Campânulas que, quando abertas, são caixas de Pandora que libertam a guilhotina da moralidade, sempre pronta a decapitar a oferecida, a porca, a ordinária. Atingimos o apogeu da hipocrisia virtuosa e imaculada.

Mas foi assim que fomos educados. À beira deste abismo patriarcal que tudo engole. Engole as mulheres, engole a diferença, engole a sexualidade plena e sem culpas, engoliu Amanda Todd, Karina Oliveira, Tiziana Cantone, Tovonna Holton e tantas outras. Centenas delas. Bella Thorne, tal como todas as mulheres e homens, tem o direito de viver a sua sexualidade em pleno. Todos temos. Seja num quarto, a amar quem nos tira o fôlego e faz de nós “alma, sangue e vida em si”, seja numa fotografia ou numa videochamada. Bella foi uma “menina Disney” que cresceu e não se tornou princesa. Tornou-se Hércules. Sejamos Bella, sejamos Hércules.