15 FORMAS DE EDUCAR FEMINISTAS

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Ontem fui correr na praia, perto da minha casa. Quando estava quase a terminar passei por dois rapazes com uns 12-13 anos que estavam parados com as suas bicicletas. Passado um pouco, tomo consciência de que esses mesmos rapazes estavam lentamente a andar nas bicicletas, atrás de mim. De repente decidiram passar e apercebo-me de que me estavam a tirar fotografias. Ao rabo, imagino. E repetiram o mesmo ritual mais uma vez até se “assustarem” com a cara feia que lhes fiz.

Fiquei a pensar no que deveria ou poderia ter dito, que fizesse a diferença. Fiquei a pensar como seria assustador se em vez de ter sido eu, tivesse sido a minha filha (da mesma idade que eles)… para ela e para mim. Fiquei a pensar como seria se educássemos mais feministas.

Podes eventualmente achar que o que fizeram foi infantil e inofensivo. Que eu, como mulher de 40 anos, até deveria sentir-me lisonjeada. Não, isto é mesmo coisa séria. É assim que começa: desvalorizamos este ato de uns miúdos agora e depois desvalorizamos a mulher que estava com roupa muito sexy e foi violada e a mulher que faz queixa por causa de violência doméstica demasiado tempo depois do acontecimento. Se as mães e os pais desses meninos estivessem a educar feministas, isto não aconteceria.

Sim, feministas mesmo. A palavra “feminismo” não poderia ser melhor. O facto de criar tantas reações fortes comprova que é mesmo a palavra certa para utilizar! O facto de, às vezes, se definir uma mulher como “feminista”, não como um elogio mas como uma crítica negativa, um pouco como chamar alguém “terrorista” ou “ladrão”… o facto de haver mulheres que ainda dizem que “não são feministas” e que criticam quem se assume como feminista… (por medo? por vergonha?) e o facto de se ouvir comentários como “feministas são mulheres que precisam de dar uma”… tudo isso mostra, claramente, que é urgente educarmos mais feministas!

Eu assumo-me alegre e orgulhosamente como feminista. Uma feminista feliz, que usa maquilhagem e soutien. Que adora homens. Que gosta de moda, saltos altos e ligas. Por mim, e não pelos homens. Uma feminista que provavelmente tem mais aventuras sexuais do que as pessoas que comentam a sexualidade de uma feminista. Uma feminista que mostra claramente os seus limites e sabe respeitar os limites dos outros.

Homens e mulheres são diferentes. Claro. Mas explica-me, por exemplo, porque é que na grande maioria das famílias é a mulher que cozinha? Não me parece que as mulheres nasçam com um gene exclusivo que define a sua capacidade de cozinhar, até porque os grandes chefs são praticamente todos homens. Porque será?

Não há nada que justifique o facto de continuar a existir tanta desigualdade entre homens e mulheres. Não há justificação para que um homem ganhe mais do que uma mulher executando o mesmo trabalho, tal como não há justificação para existirem tão poucas mulheres nos lugares de topo no mundo empresarial e na política. Não é uma questão de competência. A competência é a avaliação subjetiva de quem está a observar. E os homens tendem a avaliar as competências de outros homens mais alto do que as competências de uma mulher. Está comprovado cientificamente.

Também não há justificação para existir tanta violência nas relações amorosas, não há justificação para que se façam julgamentos em relação ao aspeto físico da mulher que foi violada, não há justificação para famílias no Nepal venderem as suas filhas…

E é aqui que entra o nosso maior trunfo, a educação, e a importância de uma parentalidade consciente. Parentalidade Consciente é obrigatoriamente feminista! Cabe-nos a nós, pais e mães dos dias de hoje, mudarmos a forma como se olha para homens e mulheres, meninas e meninos. Cabe-nos a nós quebrar com os padrões típicos de género na sociedade. Padrões que chamam à menina princesa e ao menino campeão. Padrões que, numa sala de pré-escolar, justificam que no Carnaval todas as meninas se disfarçam de girassóis e todos os meninos de jardineiros. Que competências atribuis por norma a uma princesa? E a um campeão? Que metáfora crias com meninas girassóis e meninos jardineiros? São questões complexas, enraizadas… e felizmente transformáveis! Começa por mim e por ti! Começa por termos a intenção de educar feministas!

Hoje em dia já não fazem sentido as velhas divisões entre homens e mulheres. Não precisamos dessa divisão para a nossa sobrevivência. Vivemos num mundo diferente e diversificado. Já não é o mais forte fisicamente que precisa de liderar. Quem precisa de liderar é aquela/aquele que tem inteligência, criatividade, pro-atividade, capacidade de inovar, competências que não dependem de hormonas ou de força física. De pénis ou de vagina. Evoluímos muito. Mas parece que as nossas ideias do género ainda não evoluíram. É hora de mudar.

Comecemos pela forma como educamos as nossas crianças. Temos de parar de impor o feminino e o masculino através da educação. Meninos choram e meninas trepam árvores. Meninas podem abrir portas a meninos e meninos não têm de pagar as saídas. Imagina se a crença fosse antes “quem chegar primeiro à porta abre aos outros” e “quem tiver mais dinheiro paga”? É preciso entender que nós podemos definir a cultura, não temos de ser escravos da cultura existente.

Definir pessoas de acordo com o género, masculino ou feminino, define quem deveríamos ser e não quem somos. Desde a nascença que nos condicionam através de uma socialização que exagera as diferenças, criando assim uma profecia autoproclamada na qual a grande maioria acredita e não vê além.

Feminismo não é apenas sobre os direitos das mulheres, é sobre os direitos de todos, é sobre criar condições justas e dignas para mulheres, crianças, homens, transgénero, heterossexuais, homossexuais. Feminismo é sobre direitos humanos. Historicamente o trabalho das/os feministas no mundo tem melhorado não apenas as condições para as mulheres, mas também para homens e crianças, de todas as etnias. Invariavelmente, focando na melhoria das condições para mulheres, melhoramos as condições de vida de todos. Eu incorporo ideias feministas na forma como educo os meus filhos (um com vagina e dois com pénis) e gostaria de partilhar contigo como tu também podes educar feministas, independentemente do sexo das crianças:

  1. Sê um exemplo. Se queres que o teu filho/a tua filha desenvolva valores feministas então também tens de os viver.
  1. Não feches a criança na caixinha do género. Deixa a criança liderar. Muito do que nos limita na sociedade está relacionado com ideias pré-concebidas sobre o nosso género. Foca-te na criança que tens à tua frente, nas suas capacidades e nas suas limitações, nos seus interesses e nas suas paixões.
  1. Desafia os estereótipos. Não caias na armadilha das princesas e dos campeões. Mostra que se pode escolher por gosto e interesse e que o sexo não é limitador (nem existe um sexo mais possibilitador).
  1. Tem cuidado com as crenças que passas. “Meninos não choram” e “Meninas não se portam mal” são frases a abolir.
  1. Está consciente em relação aos adjetivos que utilizas. Meninas não são só “bonitas e giras”. São também inteligentes, divertidas, energéticas e curiosas… E meninos não são apenas “fortes e corajosos”, são também sensíveis, tímidos, calmos e giros.
  1. Observa a forma como tu e outras pessoas na vida dos teus filhos/das tuas filhas comentam mulheres e homens que são figuras públicas. Apresentadores/as de televisão, artistas, políticos/as. Provavelmente vais reparar que muitas vezes uma mulher que é política leva com comentários sobre a sua aparência física mais do que sobre as suas capacidades intelectuais. Faz diferente e influencia os outros a fazerem o mesmo!
  1. Respeita os seus limites! Nunca, mas mesmo nunca forces uma criança a dar um beijo ou um abraço se ele ou ela não quer! “Não” quer sempre dizer “não” e isso tem de ser cultivado desde pequenino!
  1. Promove uma ideia saudável do seu corpo e da sua imagem. Deixa ser a criança a escolher a sua roupa e tem cuidado com os comentários que fazes. Se a criança se sente bem, está bem. Não a tornes dependente da validação externa, nem com críticas nem com excesso de elogios.
  1. Está atenta aos programas de televisão que vê, aos livros que lê, aos jogos que joga. Que tipo de mensagem passam?
  1. Tem em atenção os estereótipos quando compras brinquedos, livros e roupa.
  1. Assegura-te que também há histórias sobre mulheres fortes e corajosas (e homens sensíveis) na vida da criança. Fala sobre mulheres que se destacam na sociedade. Autoras, cientistas, atletas, políticos…
  1. Partilha a tarefa da parentalidade e da família com o pai! Mesmo!
  1. Permite e incentiva que a criança exprima a sua opinião. Deixa-a falar quando ela acha algo injusto!
  1. Fala com a criança sobre diferenças, sem julgamentos. Deixa-a saber que há homens que querem ser mulheres, mulheres que preferem ser homens, mulheres que gostam de mulheres, homens que gostam de homens… e que está tudo bem. O importante é seguir o coração.
  1. Pratica Parentalidade Consciente. A parentalidade tradicional faz parte do patriarcado. Reproduz modelos de controlo, de medo, de repressão. Reproduz a ideia de que na sociedade, nem todos valemos o mesmo. A Parentalidade Consciente baseia-se na ideia que todos temos igual valor. As nossas emoções, desejos, necessidades e opiniões têm exatamente o mesmo valor intrínseco. Nem sempre podemos fazer o que queremos, mas temos sempre o direito de exprimir o que está dentro de nós.

Se começarmos a educar os nossos filhos de uma forma diferente agora, daqui a 20, 50, 100 anos, os homens não se vão sentir pressionados para comprovar a sua masculinidade e as mulheres livrar-se-ão da submissividade.

Quando te libertas a ti e aos teus filhos do paradigma típico do género, estás a celebrar a essência do feminismo. Liberta-te e educa feministas para o bem do mundo! Só quando as palavras “feminista” e “feminismo” não causarem polémica nenhuma é que o nosso trabalho estará feito.

Ah, e já agora, ponto 16: hoje é dia 8 de Março, celebra o Dia Internacional da Mulher!