Trump - resultado da pesquisa

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Todas as notícias que eu lia sobre intolerância, xenofobia e racismo contra muçulmanos aconteciam no estrangeiro. Pessoas que tinham sido barradas em algum lado porque usavam véu, gente apupada na rua, humilhada ou desrespeitada sem qualquer tipo de pudor. Nos comentários, as hordas de ignorantes ridículos defendiam o indefensável, deitavam ao vento palavras como terrorismo e generalizações tão erradas como absurdas.E eu aqui ficava, no meu rectângulozinho de sol plantado no extremo da Europa, feliz por fazer parte de uma das culturas mais inclusivas do mundo.

Só porque nasci com uma vagina em vez de um pénis, sou um ser inferior? Pensa ao contrário, querido Trump. Se fosses tu a nascer mulher, gostavas de ser constantemente humilhado e mal tratado? Gostavas de saber, logo à partida, que vais ganhar menos que um homem, sendo mais qualificado do que ele? Gostavas de andar na rua, à noite, com receio do que te poderia acontecer? Gostavas? Penso que não.

Na sua ridícula defesa, Trump veio dizer que era um momento privado, conversa de balneário. Não há contexto que o justifique. É indiscutível o que o diálogo revela: a vontade das mulheres não conta, é normal assediá-las. É esta atitude que faz com que um idiota que nos achou graça nos apalpe; ser seguida por um fulano com quem se trocou meia dúzia de palavras no bar e que pensou que tinha direito a uma noite; sofrer insinuações de um chefe no trabalho. Ou tentar desculpabilizar os agressores sexuais e culpar as vítimas.

Alguém que responde “That makes me smart” à acusação de não pagar os seus impostos, não pode ser presidente. Alguém que defende a ideia de que a polícia deve aplicar uma política ilegal, baseada na discriminação racial, não pode ser presidente. Alguém que recusa tratados internacionais, não pode ser presidente. Alguém que quer gerir o país como se fosse uma empresa, não pode ser presidente. Alguém que convida a Rússia a realizar um ataque cibernético ao seu país, não pode ser presidente.

Tudo o que ouvi de Donald Trump não me deixa qualquer dúvida que não tem qualquer consideração pelas mulheres, pela sua capacidade de autonomia, pela sua capacidade de decisão e de concretização do rumo a dar à sua própria vida.

A pergunta foi feita sete horas depois de ter sido eleita líder do Partido Trabalhista. “Muitas mulheres chegam aos 30 anos e têm de escolher entre terem filhos ou continuarem a sua carreira. Essa é uma escolha que sente que tem de fazer ou que já fez?”. Na resposta, Ardern não se deixou intimidar e referiu que perceciona este como um dilema que muitas mulheres têm de enfrentar. No entanto, defendeu que acha inaceitável que nos dias de hoje um empregador ainda coloque esta questão pois é uma decisão das mulheres escolherem quando querem ter filhos e esta escolha não pode predeterminar se são ou não contratadas.

E é engraçado, porque a mim, que sou mulher e, naturalmente, menos sábia, parece-me que estão a dizer – admito, nas minhas infindáveis limitações, estar errada – que as mulheres deveriam ter ficado caladas. Que as pessoas LGBTI deveriam ter ficado caladas. Parece-me estarem a dizer que a sociedade era muito mais simples e menos conflituosa quando só havia dois géneros (e sexos) – homens, com letra grande, e mulheres, com letra pequena – e cada um sabia o seu lugar. Quando não tínhamos de nos preocupar com a sensibilidade d@ outr@ e respeitar a diversidade, orientações sexuais, identidades de género, preferências de tratamento ou de formas de cumprimentar. Era mais fácil quando podíamos só “grab’em by the pussy” com a certeza do silêncio. E é também engraçado, porque me parece que estes homens sábios estão a dizer o mesmo que quem acha que estamos a viver um momento único na história.

Não posso esconder que me senti fortemente incomodada ao ver uma mulher, num espaço de exposição mediática como é o jornal da SIC, diminuir desta forma a luta de outras mulheres que vivem num país onde ser mulher e/ou membro da comunidade LGBTI é extremamente perigoso. A isto chama-se, no mínimo, falta de empatia. Dizer com ar de gozo que é estranho que deputadas portuguesas se solidarizarem com um movimento cívico, apartidário de mulheres (e não só), porque não vivem no Brasil, porque não têm a ver com a situação, revela que Manuela Moura Guedes apoia aquela ideia horrenda e desumana de que “se não é aqui, se não está à frente dos nossos olhos, não importa!”.

Quando olho com atenção para os homens da minha vida, quando vejo as notícias, quando exploro as redes sociais, vejo uma história a repetir-se constantemente. Dia sim, dia sim, leio sobre homens vítimas da ideia da masculinidade. Homens que diariamente colocam máscaras para esconder a sua dor e a sua vulnerabilidade. Máscaras que não lhes permitem ter verdadeira intimidade e ser quem realmente são e querem ser. A maior parte deles inconscientes de que o homem que estão a fazer de conta que são é uma farsa.

A quem acha que a verdadeira luta feminista aconteceu nos anos 60/70 e que agora somos só um bando de histéricas a fazer figuras tristes, a quem acha que tudo isto não passa de uma luta pelo poder, a quem se sente “emasculado” e diz que isto de igualdade de género nada tem, na verdade, porque o que queremos mesmo é subjugar os homens, a quem considera o feminismo uma doença, um cancro da sociedade, eu peço desculpa. Peço desculpa se é assim que se sentem e que compreendem o feminismo, porque a verdade é que ele significa ainda mais hoje do que alguma vez significou, ao estar a tornar-se cada vez mais global e abrangente nas suas lutas.
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