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O facto de a violência doméstica afectar ambos os sexos não elimina os dados: 80% dos crimes de violência doméstica são cometidos contra mulheres. E o facto de também haver vítimas masculinas não minimiza o problema e não traz estas dez mulheres de volta. Dez. O ano só está a começar. Infelizmente todos sabemos que, no fim, estas dez serão parte de uma tragédia bem maior.

Pessoas a quem, nem na velhice, que costuma soltar a língua e as memórias antigas, ouvi um queixume. Como se fosse normal aquilo por que tinham passado, tão normal que não merecia referência não fossemos nós, as gerações que lhes assegurámos a posteridade, ficar a pensar alguma coisa menos boa dos déspotas da pancadaria. Tudo no masculino. Na geração abaixo, onde também houve vítimas, o mesmo. Silêncio absoluto. Um olhar para o lado como se nada fosse, como se o fado destinasse as que estavam destinadas a apanhar estaladas.

se sente porque não subimos as escadas com a sofreguidão do amor. Por isso, calamo-nos. A quem dizer que, quando chegamos a casa e estacionamos o carro ficamos ali uns 15 minutos a respirar... Só a respirar. A encher o peito de golfadas de oxigénio. A apneia do dia e o cansaço do corpo das braçadas constantes. De cá, para lá. De cá, para lá. Ficamos ali. São só 15 minutinhos. A respirar. Dentro do carro. Na garagem. Na rua, a ver a vida passar, a correr, a atravessar. A ler as mensagens adiadas no telemóvel. Os emails e as fotografias felizes das rotinas incríveis dos outros. Sentadas. Frente a casa. A encher o pulmão e a esvaziar a cabeça. Não saberão que demorámos só mais 15 minutinhos.
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Imaginem que, certo dia, recebem um telefonema da escola. São chamadas à escola e recebidas pela diretora e pela psicóloga. O que ouvem deixa-vos geladas: a vossa filha foi abusada sexualmente pelo pai numa das visitas. A psicóloga explica que os sintomas da menor (retrocesso cognitivo e comportamental, incontinência urinária, etc.) são coincidentes com o relato que a própria menor fez, espontaneamente, a uma das professoras. O que fariam, na próxima sexta-feira?
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Guarda partilhada e residência alternada: 32 perguntas e respostas fundamentais. O que é que a lei diz sobre a “guarda partilhada”? O que é que a lei diz sobre a residência alternada? Todos os pais têm de ir a tribunal para regular as responsabilidades parentais? É habitual os pais desejarem, havendo acordo, um regime de residência alternada e verem-no negado na Conservatória ou pelo tribunal? A Capazes defende que se parta do princípio de que a guarda partilhada é o melhor para a criança, e que seja esta a regra geral?
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Foram oito assassinatos que não deixaram história, até por terem todos a história mais do que contada. Elas, entendidas por vítimas por escolha própria, terminaram a relação, abandonaram o lar, não aceitaram continuar a ser maltratadas, enfim, tiveram a iniciativa de se libertarem e ninguém lhes disse que tinham perdido esse direito. A seguir, se nos dessem a conhecer a história, saberíamos que eles perderam a cabeça, foi a bebida, os ciúmes, as tarefas domésticas que não apareciam feitas, o vestir-se para os outros, a violação do direito de propriedade registado algures. E eles, seres frágeis, não resistiram.

Trinta anos, uma filha de dois e um trabalho precário. É ela quem tem de sair de casa. Arrenda-se uma perto do trabalho. Agora cabe-lhe pagar as contas, cuidar da filha e da casa. À sua volta, medo. Medo de enfrentar tudo sozinha. Como é que se faz? Não há ajudas de terceiros, não há família por perto. Está por sua conta e risco. Os primeiros dias são de grande insegurança, ela nunca soube o que era caminhar sozinha. Mas não pode ser assim tão difícil. É mulher.

Não é verdade que na nossa língua tudo o que é mau e feio se apresenta com pinceladas de breu? É o mercado negro, a lista negra, a magia negra, a ovelha negra, o que é feio como um tição. Mas a prática da língua não é discriminatória e racista... claro que não, até tem palavras para enunciar esse mundo de trevas e negredado que nos dispensamos de conhecer: a “vida negra” ou, como diriam os nossos amigos brasileiros – brancos, claro – “o trabalho foi feito para três. Preto, burro e português”.
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Anália Torres, socióloga e feminista, herdou o nome da avó que lhe ensinou as coisas mais importantes que aprendeu na vida. Nesta entrevista ajuda-nos a perceber a origem das desigualdades entre homens e mulheres e o caminho a percorrer para que se dissipem. Um luxo e um prazer, ouvi-la.
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Entrevistas Destaques

  1. Porque te amas?
Amo-me já aceitei que não temos de ser perfeitas para sermos felizes.  
  1. Já qu...

ULTIMAS CRÓNICAS

O facto de a violência doméstica afectar ambos os sexos não elimina os dados: 80% dos crimes de violência doméstica são cometidos contra mulheres. E o facto de também haver vítimas masculinas não minimiza o problema e não traz estas dez mulheres de volta. Dez. O ano só está a começar. Infelizmente todos sabemos que, no fim, estas dez serão parte de uma tragédia bem maior.

Pessoas a quem, nem na velhice, que costuma soltar a língua e as memórias antigas, ouvi um queixume. Como se fosse normal aquilo por que tinham passado, tão normal que não merecia referência não fossemos nós, as gerações que lhes assegurámos a posteridade, ficar a pensar alguma coisa menos boa dos déspotas da pancadaria. Tudo no masculino. Na geração abaixo, onde também houve vítimas, o mesmo. Silêncio absoluto. Um olhar para o lado como se nada fosse, como se o fado destinasse as que estavam destinadas a apanhar estaladas.

se sente porque não subimos as escadas com a sofreguidão do amor. Por isso, calamo-nos. A quem dizer que, quando chegamos a casa e estacionamos o carro ficamos ali uns 15 minutos a respirar... Só a respirar. A encher o peito de golfadas de oxigénio. A apneia do dia e o cansaço do corpo das braçadas constantes. De cá, para lá. De cá, para lá. Ficamos ali. São só 15 minutinhos. A respirar. Dentro do carro. Na garagem. Na rua, a ver a vida passar, a correr, a atravessar. A ler as mensagens adiadas no telemóvel. Os emails e as fotografias felizes das rotinas incríveis dos outros. Sentadas. Frente a casa. A encher o pulmão e a esvaziar a cabeça. Não saberão que demorámos só mais 15 minutinhos.
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Imaginem que, certo dia, recebem um telefonema da escola. São chamadas à escola e recebidas pela diretora e pela psicóloga. O que ouvem deixa-vos geladas: a vossa filha foi abusada sexualmente pelo pai numa das visitas. A psicóloga explica que os sintomas da menor (retrocesso cognitivo e comportamental, incontinência urinária, etc.) são coincidentes com o relato que a própria menor fez, espontaneamente, a uma das professoras. O que fariam, na próxima sexta-feira?
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Crónicas Destaque

Esperam que sejas magra. Atlética. Que corras todos os dias. Ou dia sim, dia não, vá. De depilação feita e unhas coloridas. Que faças bolos ao sábado. E que não tenhas as raízes do cabelo por fazer. Esperam que te comportes bem e que nunca bebas um copo a mais para não caíres em figuras ridículas. Que nunca sejas daquelas que urina entre dois carros, no meio do Cais do Sodré.

Voltou a olhar para mim, semicerrou os dentes e baixinho perguntou-me, pausadamente: “Com quantos gajos estiveste?”. Ele parecia furioso e eu fiquei com medo porque não sabia qual era, para ele, a resposta certa, mas arrisquei e respondi-lhe novamente, “Só contigo, Pedro. Conhecemo-nos pouco tempo depois de eu cá chegar”. Lembro-me de acordar no dia seguinte. Sentia dores no corpo todo, devia ser da ansiedade e daquela tensão. Já sabes que odeio discutir, sobretudo com ele. Tenho medo que se farte de mim...

A partir do momento em que viram o meu corpo inerte, ninguém perguntou onde estava o filho da puta que acabou com os meus sonhos, as minhas esperanças, a minha vida. Não, preferiram começar a fazer-me perguntas inúteis. A mim, podem imaginar? Uma morta, que não pode falar, que não se pode defender. Que roupa estava a usar? Porque é que estava sozinha? Porque é que uma mulher quer viajar sem companhia?

Carol perdoa-lhes: acham que podem opinar sobre o teu decote, sobre o teu peito. Acham que têm o direito de te dizer o que podes ou não vestir #nomeudecotemandoeu

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Guarda partilhada e residência alternada: 32 perguntas e respostas fundamentais. O que é que a lei diz sobre a “guarda partilhada”? O que é que a lei diz sobre a residência alternada? Todos os pais têm de ir a tribunal para regular as responsabilidades parentais? É habitual os pais desejarem, havendo acordo, um regime de residência alternada e verem-no negado na Conservatória ou pelo tribunal? A Capazes defende que se parta do princípio de que a guarda partilhada é o melhor para a criança, e que seja esta a regra geral?
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Cada palavra a mais é recompensada com um choque elétrico, que aumenta de intensidade e proporção ao número de infrações. Cortesia de uma pulseira obrigatória também usada por crianças e adolescentes do sexo feminino. Canetas e papéis são proibidos; livros fechados a sete chaves; a utilização de linguagem gestual é punida. Esta é uma história que permite abordar, em entrevista, temas como o feminismo, o conservadorismo popular crescente em alguns países, o pensar a “palavra” como um direito garantido, o perigo da barreira ao pensamento crítico, entre outros.

A Quebrar o Silêncio apresenta a 2º edição do encontro “O homem promotor da igualdade — homens e mulheres lado a lado pela igualdade de género”, que irá realizar-se a 15, 16 e 17 de novembro no ISCTE-IUL, em Lisboa. Para 2018, o evento terá como eixos centrais a interseccionalidade e os direitos das pessoas LGBTI, além do tema central que é a promoção de novas masculinidades e a promoção do papel do homem na igualdade de género.

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Esta história é real, faz doer o coração, faz-nos sentir vergonha alheia, vergonha de nós próprios e do mundo. Esta é uma história sem um final feliz. A personagem principal é Amanda Rodrigues, de 19 anos, que nunca chegará a festejar os 20 porque morreu no passado dia 17 de janeiro. Perdeu a vida porque queria que as pessoas gostassem dela.

Jovem, 25 anos, com mestrado, com licenciatura, com formação profissional, a frequentar pós-graduação, com experiência, extremamente motivada para pôr “as mãos à obra” e disposta a receber pouco por isso, até mesmo a ser um bocadinho explorada (mas atenção, nada de exageros!). Aparentemente são características que os empregadores procuram, certo?

do Autor/a da Criada Malcriada
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